Diário de Primavera: Por trás da Coleção Wear Tinctorium da Primavera de 2025
- annettebrinckerhof
- há 1 dia
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A primavera é uma estação de renascimento, de cores suaves e resiliência indomável. A cada ano, a coleção de primavera é moldada pelas plantas silvestres que muitos ignoram — ou pior, tentam eliminar. Essas chamadas "ervas daninhas" brotam ao longo das estradas e nas margens dos campos, prosperando apesar de nossas tentativas de controlá-las. Nesta temporada, sua força silenciosa se une a uma poderosa novidade nos caldeirões de tingimento: a raiz de ruiva cultivada em casa, trazendo tons de rosa, coral e vermelho para o estúdio pela primeira vez.
Raiz de Ruiva: Quatro Anos em Produção
Nesta primavera, após quatro anos de cultivo e espera, finalmente chegou a hora de colher minhas plantas de ruiva. De 2,5 quilos de raízes frescas, sequei-as até obter apenas 800 gramas — uma pequena, porém preciosa, quantidade suficiente para tingir 800 gramas de tecido de um vermelho intenso, se usada em sua forma pura.
Mas a ruiva, assim como a própria primavera, não precisa gritar para ser poderosa. Quando manuseada com delicadeza, revela tons suaves de rosa, corais quentes e laranjas do pôr do sol. Com uma oferta tão limitada, optei por me concentrar nesses tons primaveris. Eles parecem mais fiéis à estação — frescos, delicados e discretamente radiantes.
As raízes foram colhidas em fevereiro, cuidadosamente lavadas e esfregadas, picadas e penduradas em sacos de pano sobre a lareira para secar. Em abril e maio, estavam prontas para os tingidores, onde a cor se desdobrava lentamente como flores ao sol.
A alegria dessa nova paleta de cores me inspirou a plantar 60 novas mudas de ruiva nesta primavera, aconchegadas em 20 vasinhos. No ano que vem, vou transplantá-las para vasos maiores e, daqui a dois anos, elas também estarão prontas para oferecer suas raízes e cores.
ERVAS DANINHAS DA PRIMAVERA
Funcho-bravo ( Foeniculum vulgare ) - um arbusto perene nativo, comestível e medicinal.
Crisântemos ( Glebionis coronaria) - flor silvestre anual nativa, mais conhecida como 'margarida selvagem'.
Coleostephus ( Coleostephus myconis) - outra flor silvestre nativa, também conhecida como 'margarida selvagem'.
Anacyclus ( Anacyclus radiatus ) - mais uma flor silvestre nativa, também conhecida popularmente como 'margarida selvagem'.
Bidens ( Bidens aurea ) - Planta invasora que se espalha por meio de rizomas e é encontrada com mais frequência em solos úmidos.
Cenoura-brava ( Torilis arvensis ) - Pertence à família da cenoura, mas não é a cenoura-brava. NÃO CONFUNDA com a cicuta, planta venenosa semelhante e tóxica.
Tagueda ( Dittrichia viscosa) - Planta nativa e perene tão comum que geralmente passa despercebida.
Coreopsis ( Coreopsis grandiflora) - Espécie exótica (mas não particularmente disruptiva para os ecossistemas locais), também conhecida como 'escapada do cultivo'.
Mamona ( Ricinus communis) - Invasora em Portugal, é mais conhecida pelo seu óleo cosmético e pela ricina, uma substância venenosa presente nas suas sementes.
Gerânio-robertiano (Geranium robertianum) - Meu gerânio favorito para impressão. Só está disponível perto de mim no início da primavera. Assim que o calor chega, ele desaparece e então preciso ir a lugares mais frescos (em Sintra, por exemplo) para coletá-los.
Peças de seda para a primavera
Após o sucesso dos pulôveres de lã tingidos naturalmente no inverno, voltei minha atenção para a seda — uma companhia perfeita para a delicadeza da primavera. Selecionei um número limitado de vestidos de seda vintage e camisas de botão, cada peça escolhida por sua beleza atemporal e maciez.
A seda, com sua afinidade natural por corantes botânicos, retém a cor de uma forma quase luminosa. Mas é um material desafiador: fino, escorregadio e incomum em comparação com o algodão ou a lã. Inspirando-me em minhas experiências anteriores com lenços de seda, criei uma pequena série intencional de peças 100% seda que transmitem a sensação de verdadeiras relíquias da estação.
Uma reflexão sobre o poder das ervas daninhas
As ervas daninhas com as quais trabalho a cada primavera são mais do que apenas material vegetal — são uma filosofia, uma rebeldia silenciosa. Num mundo obcecado por produtividade e propósito, onde se espera que provemos o nosso valor para conquistarmos um lugar, as ervas daninhas oferecem uma outra forma de ser.
Elas existem sem pedir desculpas, florescendo em frestas e espaços esquecidos, não porque alguém planejou isso, mas porque podem. Elas não buscam aprovação. Elas me lembram que estar vivo, estar aqui, já é o suficiente.
Num mundo onde populações inteiras são desumanizadas, deslocadas e alvo da mesma linguagem que usamos para descrever plantas indesejadas — invasoras, ilegais, uma ameaça — é nessas ervas daninhas espontâneas da primavera que encontro força. Sua sobrevivência é desafiadora, sua beleza inegável.
Aprenda com os erros do destino e não se deixe enganar, aceitando a violência, a guerra, a manipulação e a escalada do conflito como essenciais para a sua segurança. Se não conseguimos nos sentir seguros sem o extermínio de algo, talvez o problema seja nós.








































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